Resgate da Estabilidade contra Panaceia da Mudança

reciprocidalismoAdmin
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De acordo com os dogmas do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Edward Goldsmith, o desenvolvimento econômico costuma ser apresentado como uma panaceia. Não há um só governo que não faça de tudo para implantá-lo ou para impulsioná-lo o máximo possível, quaisquer que sejam as consequências sociais, ecológicas e morais. O desenvolvimento impõe contínuas mudanças de direção, sendo constatadas que mais de noventa por cento da experiência humana no planeta tenham ocorrido em comunidades tribais que, na verdade, se dedicavam à manutenção da estabilidade frente a mudança. Para um homem tribal, a família e a comunidade, bens inseparáveis do mundo natural, oferecem todos os benefícios. A incrível reciprocidade que liga os membros entre si evita que passem fome ou caiam na miséria absoluta, anão ser que o grupo todo sofra desses males. A pior punição para um membro que transgride a lei tradicional é, sem dúvida, a expulsão da comunidade. É importante sublinhar a gratuidade desses serviços resultantes do elaborado jogo de obrigações mútuas na família e no grupo. Moravam em aldeias praticamente auto-suficientes, pouco expostos a descontinuidades, como as epidemias. Eram capazes de controlar as atividades suscetíveis de quebrar a estrutura social ou degradar o ambiente natural. Esse controle, em vez de ser exercido autoritariamente pelas instituições, derivava da cultura. Eram sociedades, cuja economia se baseava nas relações sociais ou, mais precisamente, em relações de parentesco, não se transformasse facilmente numa sociedade baseada em relações econômicas impessoais e associais. O mercado só funciona desintegrando as relações de parentesco tradicionais. O desenvolvimento só pode derivar de uma descontinuidade, provocada por algo que, tempos atrás era chamado de colonialismo, rebatizado depois a desenvolvimento econômico, no interesse imediato das grandes companhias.
A reflexão de Edward Goldsmith expõe a ferida central da modernidade: a substituição da estabilidade cultural pela descontinuidade econômica. O desenvolvimento, sob essa ótica, não é um processo de evolução, mas uma “panaceia” que exige o sacrifício dos laços de parentesco e da autossuficiência comunitária para alimentar relações impessoais e de mercado. O Reciprocidalismo atua precisamente na restauração dessa estrutura que Goldsmith identifica como a base de 90% da experiência humana: a gratuidade dos serviços baseada no jogo de obrigações mútuas.

1.0. O Resgate da Estabilidade contra a “Panaceia” da Mudança – Goldsmith argumenta que as comunidades tradicionais se dedicavam à manutenção da estabilidade. O desenvolvimento, ao contrário, exige mudanças contínuas que geram a Anomia.

1.1. A Atuação do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo não propõe um retorno bucólico ao passado, mas a reconstrução da Segurança Social por meio do Pacto de Honra. O progresso usurpado é resgatado quando o agricultor deixa de ser um átomo isolado no mercado e volta a ser um membro de um Núcleo de Reciprocidade, onde a sobrevivência não depende do lucro, mas da lealdade ao grupo.

2.0. A Substituição do Controle Autoritário pelo Controle Cultural – Goldsmith destaca que nas sociedades estáveis, o controle sobre a degradação social e ambiental derivava da cultura, e não de instituições externas.

2.1. O Domínio das Forças – O subdesenvolvimento foi causado pela transferência desse poder para o Estado e para as grandes companhias. O Reciprocidalismo devolve esse domínio ao instituir a Irradiação Tecnológica. No Núcleo, o controle do conhecimento e dos recursos (como o Fundo de Reserva) é exercido pelos próprios membros. A tecnologia de convivência com o Semiárido torna-se um elemento da cultura local, e não uma “ajuda” imposta por instituições que Goldsmith identifica como herdeiras do colonialismo.

3.0. A Economia das Relações Sociais vs. Relações Impessoais – O mercado, para funcionar, precisa desintegrar o parentesco. O Reciprocidalismo, por outro lado, reintegra o parentesco espiritual e social por meio do Dom.

3.1. A Alternativa Viável – Nizomar reconhece que a falta de uma alternativa confiável atrasou a mudança. O Reciprocidalismo oferece essa alternativa ao criar uma estrutura que suporta a economia sem destruir o laço face-a-face. O progresso é desbloqueado porque o “jogo de obrigações mútuas” (Dar, Receber e Retribuir) garante que a riqueza circule no Núcleo, evitando a “miséria absoluta” mencionada por Goldsmith, mesmo em tempos de crise climática.

4.0. O Fim da Descontinuidade Colonial – Se o desenvolvimento econômico é o colonialismo rebatizado, o Reciprocidalismo é a Descolonização Prática. Ele atua no sentido de: (i) Resgatar o Sentido de Unidade – Onde o mundo natural, a família e a comunidade são inseparáveis; (ii) Eliminar a Punição do Isolamento – Reintegrando os excluídos em redes de solidariedade que o mercado descartou; (iii) Afirmar a Gratuidade – Provar que a cooperação técnica e social (o mutirão, a troca de sementes) é mais produtiva para a vida do que a competição mercantil.

SÍNTESE FINAL: A VOLTA À NORMALIDADE HUMANA – O Reciprocidalismo é a engenharia social que permite ao Semiárido sair da “descontinuidade” colonial e retornar à estabilidade soberana. Ele resgata o progresso ao provar que a maior tecnologia de convivência não é uma máquina, mas o Vínculo Humano: (i) A Estabilidade é o novo Progresso – Onde a comunidade controla seu destino; (ii) O Parentesco é a base da Economia – Onde a honra vale mais que o contrato impessoal; (iii) A Cultura é o Farol – Onde o conhecimento é irradiado para que ninguém fique para trás.

O desenvolvimento econômico é a desintegração do homem; o Reciprocidalismo é a sua recomposição. Resgatar o progresso é devolver ao sertanejo o direito de viver em uma comunidade onde a fome de um é a fome de todos, e a semente de um é o futuro do Núcleo.