Árvore da Vida
O Reciprocidalismo, procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
De acordo com os axiomas do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades das terras secas – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Gilbert Rist, o cadáver ainda se mexe e as inconsoláveis viúvas redobram os esforços para restaurar a ilusão de sua existência, na medida em que os insucessos do desenvolvimento não são suficientes para transformar seus fiéis incréus. A luta interna que se dá entre o assistencialismo/socialismo de Estado e o capitalismo, que os coloca em concorrência, na verdade, os une, ao invés de opô-los, pois não se trata de mudar as regras do jogo, mas de permitir a cada um jogar o mesmo jogo com todos os outros. Assim, perpetua-se a luta entre os defensores bem conceituados do desenvolvimento e aqueles que se apresentam como contestadores, ansiosos por propor uma alternativa, pluralista, convictos de serem porta-vozes das associações de base, dos sem voz ou dos excluídos. É um debate sem fim, insensível as práticas reais. O uso do oxímoro ultrapassou o campo da mística ou da poesia para invadir o da política e do desenvolvimento. O estratagema é evidente: o adjetivo, caracterizado positivamente, tem a função de dissimular a carga negativa assumida pelo substantivo. Daí, expressões como desenvolvimento humano, desenvolvimento duradouro – substituído mais recentemente por desenvolvimento sustentável – como mecanismo de fazer com que determinadas tecnologias – que contribuem antes e tudo para extensão da mundialização, para o crescimento das desigualdades, para a transformação da natureza em mercadoria e para substituição dos laços sociais baseados no face-a-face por próteses numéricas – pudessem fugir repentinamente da lógica do lucro para entrar na lógica do bem comum.
A reflexão de Gilbert Rist é cirúrgica ao expor o desenvolvimento como um “cadáver que ainda se mexe”, sustentado por oxímoros (desenvolvimento sustentável, humano, social) que servem apenas para perfumar um conceito em decomposição. Rist denuncia que tanto o Estado assistencialista quanto o Mercado capitalista jogam o mesmo jogo: a expansão da mundialização e a substituição dos laços sociais por “próteses numéricas”. O Reciprocidalismo surge precisamente como a alternativa viável e confiável que Rist sentia falta. Ele não tenta colocar um adjetivo positivo no substantivo “desenvolvimento”; ele propõe a substituição do jogo.
O RESGATE DO PROGRESSO: ALÉM DOS OXÍMOROS E DA ILUSÃO
1.0. O Fim do Jogo das Viúvas (Estado vs. Mercado) – Rist argumenta que a briga entre assistencialismo e capitalismo é uma falsa dicotomia, pois ambos buscam a integração das populações em um modelo de crescimento que destrói o “face-a-face”.
1.1. A Atuação do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo rompe com essa circularidade ao identificar que o problema não é quem gerencia o desenvolvimento, mas a própria Anomia gerada pela perda do Dom. O Reciprocidalismo retira o sertanejo desse “debate sem fim” e o coloca na Prática Real. O progresso deixa de ser uma promessa futura das “viúvas do desenvolvimento” e passa a ser a reconstrução presente dos laços sociais.
2.0. A Substituição das “Próteses Numéricas” pelo Face-a-Face – Gilbert Rist critica a tecnologia que substitui o contato humano e transforma a natureza em mercadoria. No desenvolvimento convencional, a tecnologia é a prótese que isola o indivíduo.
2.1. O Resgate pelo Reciprocidalismo – Nos Núcleos de Reciprocidade, a tecnologia de convivência (como a cisterna ou o barreiro, ou o silo trincheira etc.) não é uma prótese numérica ou mercadoria; é um instrumento de mediação social. Ela exige o face-a-face. Para que a tecnologia seja irradiada, o vizinho precisa conversar com o vizinho, o Fiandeiro precisa ensinar o aprendiz. O progresso é resgatado quando a técnica serve para reunir, e não para isolar.
3.0. A Construção de uma Alternativa Viável e Confiável – Nizomar reconhece que o atraso na mudança deveu-se à falta de alternativas seguras. Muitos contestadores propuseram utopias “insensíveis às práticas reais”. O Reciprocidalismo como Prática Real – O diferencial da proposta de Nizomar é a Estrutura Sócio-Econômica Prática. Ele oferece: (i) Segurança Hídrica e Alimentar, por meio da Irradiação de Tecnologias; (ii) Segurança Social – Por meio do Pacto de Honra; (iii) Segurança Econômica – Por meio dos Fundos de Reserva e Estoques Comuns. Ao oferecer essa estrutura, o Reciprocidalismo deixa de ser apenas uma “contestação” para se tornar uma Rota de Fuga Segura do subdesenvolvimento.
4.0. O Domínio das Forças Usurpadas – O progresso foi usurpado quando o sentido da vida foi delegado à “lógica do lucro” dissimulada de “bem comum”. O Reciprocidalismo devolve o domínio dessas forças ao indivíduo e à comunidade. Quando o Núcleo decide adotar uma tecnologia “de dentro para fora” (pela espoleta da mediação), ele está retomando as rédeas da ciência. O domínio é resgatado quando o agricultor percebe que o progresso não é o crescimento da produção para o mercado, mas o crescimento da capacidade de convivência com o semiárido.
SÍNTESE FINAL: A CURA DA CEGUEIRA IDEOLÓGICA – Enquanto as “viúvas do desenvolvimento” tentam reanimar o cadáver com novos nomes, o Reciprocidalismo convida o povo a enterrar a ilusão e a plantar a realidade. Recriar a sociedade nas terras secas significa: (i) Abandonar os oxímeros – Não precisamos de “desenvolvimento sustentável”, precisamos de Reciprocidade Genuína; (ii) Rejeitar o jogo – Não queremos jogar o jogo da mundialização; queremos construir a Soberania do Núcleo; (iii) Instaurar a Confiança – A alternativa viável é aquela que garante que, na próxima seca, o meu vizinho terá água e eu terei sementes, não por contrato, mas por Honra.
O desenvolvimento é um debate sem fim entre cegos; o Reciprocidalismo é o farol que permite ao sertanejo enxergar que a riqueza sempre esteve no laço que o une ao seu irmão.