Viés Ambiental
O Reciprocidalismo, sob o viés ambiental, redefine a relação entre o ser humano e o ecossistema. Deixa de ser uma relação de...
De acordo com as premissas do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Majid Rahnema, o desenvolvimento usa palavras estereotipadas como crianças usam peças de lego: as palavras são encaixadas umas nas outras arbitrariamente e servem de base para as mais estranhas construções. As palavras não têm conteúdo, mais executam uma função. Como esses vocábulos são utilizados fora de qualquer contexto passam a ser instrumento de manipulações: democracia, minorias, participação etc., pertencem a essa categoria de expressão. Na maioria das vezes, em nome da participação, as pessoas são insistentemente requisitadas ou até forçadas a participar em operações nas quais não tem o menor interesse. Várias manifestações contemporâneas a favor de regimes repressivos, foram atos de participação involuntária; logo, manipuladas – os participantes não sentem como se estivessem sendo forçados a fazer alguma coisa, mas, na realidade, são levados a agir de uma maneira que é inspirada ou gerenciada por centros fora de seu controle. É quase tautológico afirmar que todas as sociedades, especialmente as ditas primitivas ou tradicionais, são participativas. Ativistas sociais e funcionários de várias organizações internacionais que atuavam nos países em desenvolvimento, depararam-se com uma realidade totalmente diferente daquela que suas expectativas os levavam a imaginar. Isso fez com que atribuíssem o fracasso dos projetos de desenvolvimento ao fato de que as populações envolvidas eram excluídas de todos os processos relativos ao desenho, formulação e implementação desses projetos. A maioria desses especialistas começou, então, a defender a inclusão de métodos de interação, participativos, como uma dimensão essencial para o desenvolvimento e a exigir que não fossem mais utilizadas estratégias de ação planejadas de cima par baixo.
Esta reflexão final nos leva ao campo da linguagem e do poder. A crítica de Majid Rahnema expõe como o aparato do desenvolvimento sequestrou conceitos sagrados — como a “participação” — para transformá-los em ferramentas de domesticação e manipulação. Ao unir essa visão ao Reciprocidalismo, percebe-se que o subdesenvolvimento no Semiárido é mantido por uma “participação de fachada” (as peças de Lego de Rahnema) que ignora a verdadeira agência do sertanejo. O progresso foi bloqueado porque o povo foi convidado a “participar” de desenhos prontos, vindos de fora, tratando a cultura local apenas como uma peça a ser encaixada em uma construção alheia.
DAS PEÇAS DE LEGO AO TECIDO DA SOBERANIA
1.0. O Sequestro da Participação e a Anomia – Rahnema alerta que a “participação” tornou-se muitas vezes involuntária ou gerenciada por centros de controle externos. No desenvolvimento tradicional, o sertanejo é convidado a participar de reuniões apenas para legitimar verbas ou projetos de ONGs e governos.
1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – Essa participação manipulada não gera reciprocidade; gera dependência e cinismo. O povo “participa” porque espera o benefício imediato (ajuda calculista), não porque acredita na construção coletiva. Isso aprofunda a *Anomia, pois esvazia o sentido do compromisso de honra;
1.2. O Bloqueio do Progresso – O progresso estagna porque o conhecimento técnico não se torna semente; ele permanece como um objeto estranho que o “participante” abandona assim que o projeto externo termina.
2.0. A Participação Orgânica vs. O Método Importado – Rahnema afirma que é quase uma obviedade dizer que sociedades tradicionais são participativas. Elas não precisam de um “método de interação participativa” importado, pois já possuem a Reciprocidade Genuína. O mutirão, a partilha dos estoques e a gestão das águas são formas de participação orgânica que precedem qualquer teoria de desenvolvimento. O erro dos especialistas foi tentar “ensinar” participação a povos que já eram mestres na convivência, mas que estavam sendo despojados de sua autonomia pela lógica do mercado impessoal e do Estado assistencialista.
3.0. A Implantação: Do “Participante Lego” ao “Fiandeiro Soberano” – A implantação do Reciprocidalismo sob a ótica de Rahnema exige uma limpeza do vocabulário e uma mudança na origem do controle:
3.a. A Participação como Dever de Honra (Retribuição) – No Reciprocidalismo, a participação não é um convite opcional para legitimar burocracias; é a base do Pacto de Honra. Você participa porque é um Fiandeiro. O controle da ação reside no Núcleo de Reciprocidade, não no técnico da organização. A “peça de lego” é substituída pelo fio que cada um traz para o tecido social;
3.b. O Desenho Local vs. O Estereótipo Global – Diferente das construções arbitrárias de Rahnema, o desenho do progresso no Reciprocidalismo nasce da Geografia Humana local. O técnico não traz o “desenho do projeto”; ele traz a ciência para ser fiada no tear da comunidade. A participação deixa de ser uma “estratégia de ação” e passa a ser a própria Soberania do Desenho;
3.c. A Cura da Manipulação via Irradiação – Contra o gerenciamento por centros externos, o Reciprocidalismo propõe a Irradiação. Quando um vizinho ensina o outro, a inspiração é interna. Não há manipulação, pois o sucesso do vizinho é a garantia da segurança de todo o Núcleo de Reciprocidade.
SÍNTESE FINAL: A RECONQUISTA DO SENTIDO – A reflexão de Majid Rahnema nos ensina que as palavras do desenvolvimento foram esvaziadas para servirem ao controle. O Reciprocidalismo devolve o peso e a verdade às palavras. Recriar o Semiárido é admitir que: (i) Não aceitamos a “participação Lego” – Não somos peças para serem encaixadas em projetos alheios; (ii) Recuperamos a gestão do sentido – Palavras como “ajuda”, “progresso” e “soberania” devem significar o fortalecimento real dos vínculos e a extinção da anomia; (iii) Somos Agentes de Reciprocidade – Onde o controle da vida e dos estoques volta para as mãos de quem pisa o chão da roça. “O desenvolvimento tenta nos encaixar como peças; a Reciprocidade nos une como fios. Peças podem ser desmontadas por quem as encaixou; fios tecidos em honra formam um manto que ninguém consegue rasgar.