Armadilha da Autossuficiência Isolada

reciprocidalismoAdmin
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De acordo com as premissas do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Vianna Moog, em bandeirantes e pioneiros, este domínio é liquidado, depois de uma rápida fase do mercantilismo e capitalismo puro, recai o Brasil em pleno feudalismo, o campo volta a predominar sobre a cidade, as consciências voltam a atribular-se por motivos econômicos, a unidade social mais importante não será mas o armazém mas o engenho, com as pirações de auto-suficiência tipicamente medieval. Era a idade média, superada na Europa, que se prolongava de mil formas na América Latina: na arquitetura, na escultura, na pintura, na legislação, nos costumes. Mas, como os tempos não retroandam, as consequências seriam uma grande indecisão entre o passado e o futuro, uma economia indefinida, nem inteiramente feudal, nem inteiramente capitalista, mas um misto de medievalismo, modernismo, feudalismo e mercantilismo, um feudalismo desprovido de espírito medieval e um mercantilismo a que faltaria o verdadeiro espírito do capitalismo. Era no campo da economia, exatamente a mesma indecisão e dubiedade que caracterizaria a política do Reino com relação ao tratamento a dar ao indígena.
A reflexão de Vianna Moog em Bandeirantes e Pioneiros oferece o diagnóstico histórico perfeito para a anomia que o Reciprocidalismo se propõe a curar. Moog descreve um Brasil preso em um “limbo” civilizatório: não somos mais a comunidade orgânica medieval (com seus laços de proteção), mas também não somos o capitalismo pleno (com sua eficiência e dinamismo). No Semiárido, essa “indecisão entre o passado e o futuro” manifesta-se como um hibridismo paralisante: temos a tecnologia do século XXI convivendo com o coronelismo do século XIX. O resultado é o subdesenvolvimento crônico, onde o progresso está bloqueado por uma estrutura que Moog chama de “dubiedade”.

1.0. A Armadilha da Autossuficiência Isolada – Vianna Moog aponta que o Brasil recaiu em aspirações de “autossuficiência tipicamente medieval” após o fracasso do mercantilismo puro.

1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – Essa autossuficiência descrita por Moog é o que o Reciprocidalismo identifica como o isolamento do produtor. Sem a reciprocidade, o homem do campo tenta sobreviver sozinho, fechado em sua “unidade” (o roçado, o engenho);
1.2. O Bloqueio – Essa autossuficiência é falsa, pois o indivíduo permanece frágil diante da seca. Ele não tem a proteção do Dom (o coletivo) nem a força do Mercado (o capital). Ele vive em um feudalismo sem a ética da cavalaria e em um capitalismo sem o espírito de inovação.

2.0. A “Dubiedade” Econômica e a Invenção da Dependência – Moog fala de um “misto de medievalismo e modernismo” que gera uma grande indecisão. No Semiárido, essa dubiedade é o combustível do Assistencialismo.

2.1. O Estado moderno entrega a cisterna (tecnologia), mas o faz por meio de uma relação feudal de favor (política);
2.2. A Ruptura do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo propõe acabar com essa dubiedade. O Reciprocidalismo não quer voltar ao “feudalismo” do engenho, nem se entregar ao “capitalismo” que exclui. Ele propõe uma terceira via: a modernidade técnica sustentada pela ética milenar da reciprocidade.

3.0. A Implantação: Do Engenho ao Núcleo de Reciprocidade – Para superar a indecisão histórica de que fala Vianna Moog, a implantação do Reciprocidalismo deve atuar como uma Engenharia de Desbloqueio:

3.a. Substituir a Autossuficiência pela Soberania Compartilhada – O “Engenho” de Moog era uma unidade de isolamento e dominação. O Núcleo de Reciprocidade do Reciprocidalismo é uma unidade de conexão e soberania. Invés de cada família tentar ser autossuficiente (o que Moog critica como um retrocesso), elas tornam-se co-dependentes por honra, criando estoques comuns que nenhum “feudalismo” ou “mercantilismo” conseguiu garantir;

3.b. Curar a Dubiedade com a Tríade do Dom – Vianna Moog descreve uma economia “indefinida”. O Reciprocidalismo traz a Definição Ética: (i) Dar – A iniciativa técnica (Ciência Moderna); (ii) Receber – A acolhida digna (Fim do Assistencialismo); (iii) Retribuir – O compromisso social (Fim do Feudalismo de Favor).

SÍNTESE FINAL: A SUPERAÇÃO DO “LIMBO” HISTÓRICO – A reflexão de Vianna Moog nos alerta que o Brasil falhou por não conseguir conciliar seus valores com suas práticas econômicas. O Reciprocidalismo é a resposta para esse dilema secular. No Semiárido, recriar a sociedade significa admitir que o progresso não virá de um capitalismo que ignora o humano, nem de um assistencialismo que mantém o feudalismo. O progresso virá da Reciprocidade Genuína. Ao implantar os Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, transformamos a “grande indecisão” de Moog na Grande Decisão do Sertão: a escolha por uma economia onde a tecnologia é moderna, mas o vínculo é sagrado. O progresso, finalmente, é desbloqueado porque o Fiandeiro deixa de ser um súdito do engenho para ser o mestre de sua própria soberania.

Vianna Moog diagnosticou a nossa dúvida; O Reciprocidalismo desenhou a nossa certeza. O fim do feudalismo no sertão não virá pelo mercado, mas pelo resgate da honra de quem sabe dar, receber e retribuir.