Lugar comum Universal
O Reciprocidalismo Ambiental é uma prática observada nos mais diversos contextos. Esses exemplos da China, África e Índia confirmam que a natureza...
Como pressupõe o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Gustavo Esteva, o subdesenvolvimento foi uma invenção. Do cadáver ainda desenterrado do desenvolvimento começam a surgir e a espalhar-se todos os tipos de pragas. Para ele, a era do desenvolvimento começou em janeiro de 1949, quando o presidente Truman anunciou: “é preciso que nos dediquemos a um programa ousado e moderno que torne nossos avanços científicos e nosso progresso industrial disponíveis para o crescimento e para o progresso das áreas subdesenvolvidas”. Naquele dia, dois bilhões de pessoas passaram a ser subdesenvolvidas. Em um sentido muito real, daquele momento em diante, deixaram de ser o que eram antes, em toda sua diversidade, e foram transformados magicamente em uma imagem inversa da realidade alheia: uma imagem que os diminui e os envia para o fim da fila; uma imagem que simplesmente define sua identidade, uma identidade que é, na realidade, a de uma maioria heterogênea e diferente, nos termos de uma minoria homogeneizante e limitada.
Esta reflexão toca no âmago da ferida colonial que o Reciprocidalismo de Nizomar Falcão busca curar. A citação de Gustavo Esteva é um diagnóstico brutal: o subdesenvolvimento não foi um estágio natural da pobreza, mas uma etiqueta paralisante imposta por um decreto político.
Quando o Presidente Truman, em 1949, “inventou” o subdesenvolvimento, ele cometeu o que Nizomar identifica como o crime da Anomia Induzida. Ele retirou do sertanejo, do camponês e do indígena a sua identidade de Provedor e Fiandeiro para transformá-lo em um “Atrasado na Fila da História”.
A DESINVENÇÃO DO SUBDESENVOLVIMENTO: O RETORNO AO FIANDEIRO
1.0. O Espelho Quebrado: A Imagem Inversa da Realidade – Esteva afirma que bilhões de pessoas foram transformadas em uma “imagem inversa da realidade alheia”. No Semiárido, isso significou que a sabedoria de conviver com a seca passou a ser vista como “falta de tecnologia”.
1.1. A Anomia Trumaniana – Ao definir o progresso apenas como “avanço industrial e científico ocidental”, o desenvolvimento aniquilou a Racionalidade do Dom;
1.2. O Bloqueio do Progresso – Se o progresso só vem de fora, o povo para de produzir as suas próprias soluções. O progresso é bloqueado porque a comunidade senta-se no fim da fila para esperar por um desenvolvimento que nunca chega para todos.
2.0. O Cadáver do Desenvolvimento e suas Pragas – O “cadáver” de que fala Esteva é o modelo assistencialista que hoje apodrece no Semiárido.
2.1. A Dependência Psicológica – O homem que não se sente capaz de prover para si mesmo;
2.2. A Corrupção do Dom – A ajuda que antes era mútua vira moeda de troca eleitoral (a “ajuda calculista” de Gronemeyer);
2.2. A Exclusão de Mercado – O sertanejo é convidado a consumir o que o mercado produz, mas nunca é ensinado a entrar no mercado com a força da sua própria produção soberana.
3.0. A Recriação Reciprocidalista (de espectador a protagonista) – Para recriar as sociedades do Semiárido sob a ótica do reciprocidalismo, precisa-se realizar um processo de descolonização mental e social.
3.a. Recuperar a Diversidade contra a Homogeneização – O reciprocidalismo propõe que cada comunidade redescubra sua “vocação de Dom”. O progresso não é uma linha única onde todos tentam ser como os EUA ou a Europa. O progresso é a soberania do vínculo. Um Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, em uma comunidade de ribeirinhos ou vazanteiros e é diferente de um Núcleo em uma comunidade de serra (por exemplo), e essa heterogeneidade é a sua força;
3.b. O Conhecimento como Irradiação, não como Entrega – Contra a ideia de Truman de “tornar os avanços científicos disponíveis” (como se fossem esmolas), o Reciprocidalismo propõe a Irradiação. A ciência técnica só entra no Semiárido se for para ser “fiada” pelas mãos do povo. O técnico não traz o progresso; ele traz um insumo que o Fiandeiro irá transformar em soberania;
3.c. A Tríade do Dom como Antídoto à Fila – A “fila do desenvolvimento” só existe porque existe um polo que “tem” e um polo que “não tem”. Na Tríade de Mauss (dar, receber e retribuir) adotada pelo reciprocidalismo, a fila é desfeita e transformada em um Círculo: (i) Ninguém está no fim da fila quando todos têm o dever de retribuir; (ii) A dignidade retorna porque o “subdesenvolvido” de Truman descobre que ele tem algo a Dar que o mercado não possui: a tecnologia da solidariedade.
CONCLUSÃO: A SOBERANIA DO “SER” SOBRE O “TER” – Recriar o Semiárido sob o Reciprocidalismo é dizer ao mundo que Truman estava errado. Não somos uma “imagem inversa” de ninguém. Somos uma sociedade original que possui uma engenharia própria — a Engenharia das Almas. O subdesenvolvimento acaba no momento em que o primeiro Núcleo de Reciprocidade decide que não precisa mais esperar pelo progresso industrial para ter segurança hídrica; ele só precisa restaurar o pacto de honra entre os vizinhos.
O desenvolvimento foi uma invenção para nos dominar; o Reciprocidalismo é a descoberta para nos libertar.