Desobediência Agrológica e as Bombas de Sementes Nativas
O NIT E A TRADUÇÃO DA “AGRICULTURA DO NÃO FAZER” NO SEMIÁRIDO 1.0. A Desobediência Agrológica e as Bombas de Sementes Nativas...
Como se está evidenciando, no Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Claude Alvares, o que existia antes do desenvolvimento, seja em termos da natureza propriamente dita, ou de formas não-ocidentais de subsistência, não possuía, segundo o que hoje nos dizem, a mesma racionalidade, sagacidade e eficiência da ciência moderna. Povos, sociedade e a própria natureza estavam “atrasadas” porque lhes faltava a ciência. A ciência e o desenvolvimento reforçavam mutuamente a necessidade que um tem do outro, legitimando-se um ao outro, naquele dando que se recebe tão bem expresso no provérbio popular inglês “eu coço suas costas, você coça as minhas”. O estado arroga-se o direito de desenvolver as pessoas e a natureza com base em uma visão de progresso delineada nos esboços providos pela ciência moderna. Nessa grande aventura as pessoas nada mais são que meros espectadores, quando muito, dentes em uma engrenagem.
Esta reflexão nos coloca diante de um espelho crítico: a aliança entre a ciência moderna e o Estado desenvolvimentista que, sob o pretexto de “iluminar” o que consideravam atraso, acabaram por apagar as tecnologias sociais de convivência e a soberania do saber local. A provocação de Claude Alvares ressoa perfeitamente com a Anomia diagnosticada pelo reciprocidalismo. O “progresso” que nos foi vendido não era um caminho para a liberdade, mas um sistema de engrenagens onde o sertanejo deixou de ser o autor de sua história para se tornar uma peça passiva.
A ENGRENAGEM DO DESENVOLVIMENTO VS. A TELA DO FIANDEIRO
1.0. A Ciência como Instrumento de Desapropriação – Claude Alvares denuncia que a ciência moderna foi usada para deslegitimar as formas de subsistência não-ocidentais. No Semiárido, isso se manifestou como o desprezo pelo saber ancestral da convivência com a seca.
1.1. A Racionalidade Excludente – Se o saber não estivesse em um artigo acadêmico ou num projeto estatal, ele era visto como “atraso”;
1.2. O Espectador – O sertanejo, que por séculos soube “ler” o tempo e partilhar o pouco, foi convencido de que não sabia nada. Ele foi colocado na plateia, esperando que a “ciência moderna” (via Estado) trouxesse a solução em um cano de metal ou em um caminhão-pipa.
2.0. A Falsa Reciprocidade: “Eu coço suas costas, você coça as minhas” – Alvares utiliza esse provérbio para expor a troca de favores entre Estado e Ciência para legitimar o poder. No Reciprocidalismo, se identifica que essa é a quebra da reciprocidade genuína.
2.1. A Troca Mercantilista – Não é o Dom (dar, receber, retribuir por honra), mas um cálculo político. O Estado dá a tecnologia (muitas vezes inadequada) e recebe em troca a submissão e a dependência do cidadão;
2.2. O Bloqueio do Progresso – Quando a ciência moderna ignora o tecido social, ela cria obras que morrem com o tempo, pois não possuem a “alma” da comunidade para mantê-las.
3.0. A Recriação sob a Ótica do Reciprocidalismo – Para recriar as sociedades semiáridas, precisamos inverter a lógica de Alvares por meio da Engenharia das Almas do reciprocidalismo:
3.a. Da Engrenagem ao Protagonismo (O Fiandeiro) – O Reciprocidalismo retira o homem do papel de “dente na engrenagem”. Ele volta a ser o Fiandeiro. A ciência e a tecnologia não vêm para “desenvolver” o homem de fora para dentro, mas para serem ferramentas nas mãos de um homem que já possui a soberania do seu vínculo social;
3.b. A Ciência como Dom, não como Dogma – No Reciprocidalismo, a ciência técnica (irrigação, manejo, mecanização agrícola, genética etc.) é integrada ao sistema do Dom. Ela é irradiada. Ela deixa de ser uma verdade absoluta do Estado para ser um presente de conhecimento que um vizinho passa para o outro. O saber científico moderno é “domesticado” pela sabedoria milenar da reciprocidade.
3.c. A Restauração da Racionalidade do Afeto – Alvares diz que as formas antigas “não possuíam racionalidade”. O Reciprocidalismo prova o contrário: a maior racionalidade no Semiárido é o Estoque Comum. Criar Núcleos de Reciprocidade e de Irradiação de Tecnologias é a ciência mais avançada que existe, pois garante que a escassez de um seja suprida pela abundância do outro através da retribuição de honra.
REFLEXÃO FINAL – A SOBERANIA DO SABER – A recriação do Semiárido exige o fim do “complexo de atraso” imposto pela modernidade. O Reciprocidalismo é o manifesto de que o progresso real só acontece quando a ciência serve para fortalecer os laços de reciprocidade, e não para substituí-los. Não somos dentes de uma engrenagem estatal; somos fios de um tecido social que, quando unido, é mais forte que qualquer seca. A soberania técnica só existe se houver, antes, a soberania do caráter e o compromisso com o próximo.
A ciência moderna pode nos dar o cano, mas só o Reciprocidalismo nos dá a água que não seca: a confiança mútua.